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Sala D4

27/08 · 11h00–12h0060 min de oficinaresumo em 11 min

Cidades, mulheres e racismo ambiental na prática

A cidade herdada do trajeto pendular masculino cobra das mulheres tempo, dinheiro e renda — e a oficina traduziu isso em critérios concretos de projeto, avaliação e venda de imóvel.

Daniele Akamine

O essencial

Contexto

Oficina apresentada duas vezes na Sala D4 do Bloco D em 27/08 — às 11h00 e às 15h00 — cruzando duas frentes de atuação anunciadas de viva voz: financiamento imobiliário e defesa dos direitos das mulheres. O objetivo declarado nas duas edições foi reconhecer como mobilidade, segurança e ocupação do território afetam as mulheres de forma diferente, sempre com recorte de raça. O formato alternou dados de anuário e de pesquisas, exemplos de políticas urbanas dentro e fora do Brasil, casos de racismo ambiental e um exercício com a plateia sobre um trajeto de oito minutos do ponto de ônibus até em casa. A plateia da tarde era formada só por mulheres e participou com relatos próprios sobre o vagão rosa; a da manhã contou com um participante homem chamado a descrever o mesmo caminho.

A sessão em detalhe

Diagnóstico

Trajeto pendular e mobilidade do cuidado

A tese de abertura foi a mesma nas duas edições: as cidades que existem hoje foram desenhadas para o trajeto do homem, e esse desenho foi consolidado pela Revolução Industrial. O percurso previsto é reto, linear, pendular — de casa para o trabalho, do trabalho para casa —, porque era assim que se organizava a vida quando os homens saíam e as mulheres ficavam. A mobilidade da mulher, sustentou-se, não é essa: ela é poligonal, o que a oficina chamou de mobilidade do cuidado — levar os filhos à escola, ao médico, à creche, passar no mercado, ir ao trabalho e voltar. Esse encadeamento nunca entrou no projeto urbano.

Do desenho decorrem os espaços que não protegem quem caminha: trechos escuros, terrenos vazios, áreas mal iluminadas e zonas de uso único — só comerciais ou só residenciais — que criam vazios em determinados horários e tornam o caminho perigoso. O argumento apresentado é o do uso misto: rua com comércio, serviço e moradia gera fluxo orgânico ao longo do dia, e fluxo inibe o crime. Uma pesquisa de duas pesquisadoras brasileiras foi citada nas duas edições para mostrar que o comércio isolado aumenta a incidência de crimes justamente porque, fechado o expediente, quem precisa passar por ali passa sozinha.

O ponto seguinte foi que essa crítica não é nova: desde 1960 a lógica das zonas monofuncionais é questionada, com defesa de uso misto, fachadas ativas e movimento constante ao longo do dia. Ainda assim, a oficina citou nas duas edições o vice-presidente do Secovi de São Paulo, com 40 anos de casa, dizendo nunca ter visto um plano diretor com perspectiva de gênero — muito menos com o recorte de raça somado. A pergunta que fechou o bloco foi como se chega a esta altura, num país que registra mais de mil e quinhentas mortes de mulheres em um único ano, sem pensar a cidade a partir de quem é mais da metade da população.

Também entrou o que já existe fora e dentro do país. Montreal foi citada pela prática de deixar a passageira descer do ônibus entre as paradas à noite, mais perto de casa e em local mais seguro; em São Paulo essa possibilidade também foi apontada. A edição da tarde perguntou à plateia se havia algo assim no Rio de Janeiro e na Bahia, e o que veio foi o relato sobre o vagão rosa: exclusivo no horário, mas não respeitado — quando as mulheres pedem, os homens não saem, e é preciso um funcionário retirá-los. Foram citados ainda o Abrigo Amigo, ponto de ônibus com totem que a mulher aciona para ter companhia por chamada até embarcar, e as câmeras do Smart Sampa, que na edição da manhã apareceram pelo efeito inibidor e pelas prisões que possibilitaram, e na edição da tarde receberam crítica direta por se concentrarem nas áreas nobres da cidade e não nas mais perigosas. Como referência regulatória, a Espanha foi citada por exigir relatório de impacto de gênero antes da aprovação de qualquer projeto urbano.

Segurança

O anuário, a casa e a rua

O dado que ancorou a sessão veio do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública: 1.571 mortes de mulheres registradas no país no ano anterior, apresentado como o ano mais letal desde 2015, quando o feminicídio passou a ser tratado como crime autônomo. Na edição da manhã, o próprio número foi qualificado como controverso — dependendo da base consultada, a contagem varia entre 1.400 e 1.800 casos. Sobre o local do crime, as duas edições convergiram: a maior parte acontece dentro de casa — mais de 66% dos casos —, praticados sobretudo por companheiros, ex-companheiros, namorados e ex-namorados.

Daí saiu o limite que a oficina impôs à própria tese. Iluminação, transporte e desenho urbano mais bem distribuído atacam uma fatia do problema — a violência na rua —, mas não resolvem a violência doméstica, que é a maior parte. A conclusão apresentada foi que a mulher não está segura nem dentro nem fora de casa, e que redesenhar a cidade com perspectiva de gênero é uma forma de amenizar, não de encerrar, o problema. A fala separou também o medo masculino do feminino: perguntado o que teme ao sair à noite, o homem responde ser roubado, perder o celular; a mulher responde sofrer violência física ou sexual, com consequências para o resto da vida.

Recorte de raça

Saneamento, área de risco e racismo ambiental

O recorte de raça foi apresentado como condição para que qualquer política funcione: mulheres não são um grupo só. Mulheres brancas, negras, periféricas, indígenas, ribeirinhas e de religião de matriz africana têm redes de apoio e necessidades diferentes, e tratar todas como um núcleo único apaga essa diferença. O exemplo trazido nas duas edições foi o saneamento básico: entre as mulheres brancas, 83,5% moram em áreas atendidas; entre as mulheres negras, 75%; entre as indígenas, menos de 30%. A consequência descrita não é abstrata — é filho doente, problema de estômago, mais demanda por atendimento médico. E, na leitura dos números de feminicídio, foi lembrado que no último período a quantidade de mulheres brancas mortas caiu enquanto a de mulheres negras subiu, o que o total geral esconde.

A ocupação do território entrou como o mecanismo que produz esse quadro: a população negra, e sobretudo as mulheres negras, é empurrada para as áreas mais periféricas e de maior risco ambiental — sem saneamento, sem transporte perto, sem trabalho perto. Uma pesquisa em 129 cidades foi citada nas duas edições para sustentar que a maior parte de quem mora em área de risco no país é população negra; e a Carta das Brasileiras, para mostrar que 63% dos lares monoparentais pobres com filhos de até 14 anos nessas áreas têm mulheres pretas e pardas como responsáveis — mulheres que precisam sustentar e cuidar da família ao mesmo tempo.

O caso escolhido para mostrar racismo ambiental na prática foi o de Santo Amaro da Purificação: um condomínio de alto padrão que, por 30 anos, despejou o esgoto sem qualquer tratamento na comunidade vizinha, porque despejar era mais barato do que tratar e do que destinar corretamente. A condenação veio recentemente. O custo apontado não ficou só nas famílias que vivem ali — crianças doentes, mulheres doentes —, mas no próprio Estado, que precisa tratar essas pessoas no sistema público de saúde.

O segundo caso foi Maceió, com a Braskem e o bairro que afundou. A cadeia descrita começa no dano ambiental e termina no mercado imobiliário: as famílias tiveram de sair das casas, a demanda por locação na região subiu, o aluguel do entorno subiu junto, e quem morava ali não conseguiu mais pagar para ficar perto — foi para bairros mais periféricos, mais distantes do trabalho, perdendo o imóvel de uma vida e o senso de comunidade em que cresceram. Foi assim que a oficina amarrou os dois casos: o reconhecimento judicial do racismo ambiental muda o patamar de responsabilização e serve de precedente para que outras empresas saibam que podem responder pelo mesmo.

Economia

O preço do medo em tempo e em renda

A oficina passou então a tratar segurança como número de economia. A pesquisa citada sobre o preço do medo mostra 40,9% das mulheres deixando de sair à noite por medo, contra 29,8% dos homens — e, além da diferença de percentual, a diferença de natureza do medo já estabelecida antes. Sobre o tempo, os valores apresentados para o deslocamento colocaram o homem branco em 10,4 horas e a mulher branca em 17,7: quase o dobro. A pirâmide desenhada a partir desses dados vai de homens brancos no topo a mulheres negras na base — menor renda e mais tempo gasto para chegar ao trabalho, justamente porque vivem mais longe dele.

O encadeamento seguinte foi o que dá a esse tempo o nome de custo. Quem tem medo de voltar tarde não faz o curso à noite; quem não se profissionaliza não consegue o emprego melhor; quem escolhe trabalhar perto de casa para não repetir o trajeto todo dia ganha menos. Some-se o gasto extra com transporte para evitar o caminho perigoso e o resultado é o mesmo: menos ascensão, menos renda, menos contribuição para a economia. Uma pesquisa do Banco Mundial foi citada nas duas edições para medir o custo das escolhas femininas condicionadas pela segurança como fatia do PIB global.

A formulação que fechou o bloco foi a de que a segurança da mulher não é só pauta social — é negócio, porque afeta a geração de riqueza de mais da metade da população. Quem historicamente ganha menos, trabalha mais longe e gasta mais tempo no transporte deixa de gerar riqueza; e o efeito recai também sobre o consumo, do mercado imobiliário à noite fora que não se faz.

Aplicação

Oito minutos até em casa e o ponto cego do empreendimento

As duas edições reservaram o fim para um exercício com a plateia. O cenário: é a volta do trabalho ou da faculdade, já é noite, e o caminho do ponto de ônibus até em casa leva oito minutos, com um trecho escuro, um terreno vazio, carros estacionados, uma passagem estreita e um bar pelo percurso. A pergunta é se a pessoa faria esse caminho. Na edição da manhã, a pergunta foi dirigida a um participante homem da plateia, que respondeu preferindo chamar um carro por aplicativo. Na edição da tarde, com plateia formada só por mulheres, a mesma pergunta foi feita ao grupo.

O contraste veio item por item. No trecho escuro, o medo de alguém aparecer do nada; no terreno vazio e entre os carros, alguém escondido; na passagem estreita, o lugar onde ninguém vê; no bar, a dúvida sobre quem está lá — socorro ou problema. E, do lado das mulheres, o repertório que se aciona sem pensar: guardar o celular no bolso, passar a bolsa para a frente, prender o cabelo para que ninguém puxe, olhar para trás, acelerar o passo, fingir uma ligação, atravessar a rua para desviar do terreno vazio, não usar fone para conseguir ouvir quem se aproxima, seguir junto de outra mulher que vai na mesma direção e, se der, mudar de trajeto.

A oficina então cobrou o custo de cada alternativa. Chamar um carro por aplicativo todo dia não serve para todo mundo. Um trajeto mais seguro que deixe mais perto de casa, mas custe 30 minutos a mais de manhã e 30 minutos a mais à noite, é escolha? Cinco reais a mais por trecho, dez no dia, todo dia, cabem no orçamento de quem? Sair mais cedo da faculdade ou do trabalho não depende de quem quer sair. Morar mais perto significa aluguel mais caro. A conclusão apresentada é que o desenho da cidade não é neutro: ele decide por onde as pessoas passam e que risco elas assumem, e para muitas o único caminho é aquele mesmo, escuro, todo dia.

O fecho foi endereçado a quem trabalha no mercado imobiliário. Ao pensar um empreendimento, a lista costuma parar em garagem e área de lazer, importantes para as crianças e para o restante da família; a proposta foi acrescentar a pergunta sobre o ponto cego do percurso entre o ponto de ônibus e o imóvel que se quer comprar, construir ou vender. Isso foi apresentado como faca de dois gumes com lado bom para quem vende: quando o empreendimento tem ponto de ônibus na porta e nenhum trecho perigoso no caminho, isso é argumento comercial. A tarefa deixada à plateia na edição da manhã foi resumir a oficina em uma frase e aplicar essa pergunta nos sete dias seguintes — já que a cidade não vem sendo pensada por elas, que passem elas a levar a questão para o próximo projeto. As referências dos dados usados foram exibidas ao final.

O que ficou

Assentado

  • O desenho urbano herdado da Revolução Industrial atende ao trajeto pendular casa-trabalho; o deslocamento das mulheres é poligonal — a mobilidade do cuidado — e não foi projetado.
  • Iluminação, transporte e uso misto reduzem o risco na rua, mas não encerram o problema: mais de 66% dos casos registrados acontecem dentro de casa.
  • Política para mulheres sem recorte de raça não alcança todas — saneamento, área de risco e tempo de deslocamento mudam conforme o grupo, e o total geral esconde essas diferenças.
  • Segurança da mulher foi tratada como questão econômica, e não apenas social: menos circulação e menos escolha significam menos qualificação, menos renda e menos geração de riqueza.
  • Para quem projeta, avalia ou vende imóvel, o percurso entre o transporte e a portaria entra na análise ao lado de garagem e área de lazer — e, quando é seguro, vira argumento de venda.

Em aberto

  • Plano diretor com perspectiva de gênero: o relato citado é de 40 anos sem ver um, e o relatório de impacto de gênero exigido na Espanha antes da aprovação de projeto urbano foi apresentado como exigência que não existe no Brasil.
  • A responsabilização por racismo ambiental depende de o precedente de Santo Amaro da Purificação se firmar sobre outras empresas.
  • Em Maceió, a responsabilização entrou na via judicial e o destino das famílias que saíram do bairro afundado ficou sem resposta, com o encarecimento do aluguel do entorno já consumado.
  • A cobertura das câmeras do Smart Sampa foi questionada por se concentrar nas áreas nobres da cidade, e não nas mais perigosas.
  • A tarefa proposta na edição da manhã — resumir a oficina em uma frase e aplicar essa pergunta nos sete dias seguintes — ficou com os participantes.

Termos citados

Mobilidade do cuidado
Deslocamento poligonal — escola, médico, creche, mercado, trabalho e volta —, em oposição ao ir e vir reto entre casa e trabalho. É o padrão descrito para as mulheres e o que não entrou no desenho da cidade.
Nomeado assim na edição da tarde e descrito nas duas.
Trajeto pendular
Percurso reto e linear casa-trabalho-casa, consolidado pela Revolução Industrial como base do planejamento da mobilidade urbana.
Abertura das duas edições.
Racismo ambiental
Ocupação do território que empurra a população negra, e sobretudo as mulheres negras, para as áreas de maior risco ambiental — sem saneamento, sem transporte e sem trabalho por perto — e a exposição dessas áreas ao dano ambiental gerado por quem está ao lado.
Bloco central da oficina, ilustrado por Santo Amaro da Purificação e Maceió.
Relatório de impacto de gênero
Documento exigido na Espanha antes da aprovação de qualquer projeto urbano, apresentado como exigência que não existe no Brasil.
Bloco de referências internacionais.
Abrigo Amigo
Ponto de ônibus com totem que a passageira aciona quando se sente insegura; alguém passa a conversar com ela até o embarque. Não impede o crime, mas inibe, porque sinaliza que o local está sendo observado.
Citado nas duas edições como iniciativa de São Paulo.
Parada entre pontos
Autorização para o ônibus parar fora do ponto durante a noite, deixando a passageira mais perto de casa e em local mais seguro.
Citada em Montreal e em São Paulo.
Marcos citados
  1. Desde 1960Questionamento da lógica de zonas monofuncionais e defesa de uso misto, fachadas ativas e movimento constante ao longo do dia, citado como debate que não é novo
  2. 2015Criação do feminicídio como crime autônomo, marco a partir do qual a oficina comparou a letalidade contra mulheres no país

Citados na oficina20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública·Carta das Brasileiras·Banco Mundial·Secovi de São Paulo·Smart Sampa·Abrigo Amigo·Braskem·Santo Amaro da Purificação (BA)·Maceió (AL)·Montreal·Espanha (relatório de impacto de gênero)·Vagão rosa

TemasCidades e gênero·Mobilidade urbana·Racismo ambiental·Segurança urbana·Planejamento urbano·Mercado imobiliário

Quem falou

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