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Sala A2

28/08 · 11h00–12h0060 min de oficinaresumo em 14 min

Como organizar rotina de corretora e mãe

Uma oficina que recusou fórmula e rotina perfeita: mapear a semana real, separar horas de presença de horas de produção e negociar acordos possíveis — com a ressalva de que as 24 horas do relógio não pesam igual para todo mundo.

Leticia Capozzi

O essencial

Contexto

Oficina solo apresentada duas vezes na Sala A2 do Bloco A em 28/08 — às 11h00 e às 15h00 —, sobre a organização da rotina de quem trabalha como corretora de imóveis e exerce o papel de mãe. O formato foi de conversa com a plateia: perguntas abertas à sala, uma maleta com objetos abertos pelas participantes e um exercício de mapeamento da própria semana proposto como tarefa para depois. As duas edições seguiram o mesmo roteiro — papel do cuidado, rotina real, produtividade no plantão, números da profissão, comunicação e rede de apoio — e fecharam com um plano de sete dias. A abertura registrou a terceira participação no congresso e o segundo ano como instrutora; a edição da tarde teve mais troca com a plateia, sobre culpa, filho doente em casa e a cobrança de presença feita pelos filhos.

A sessão em detalhe

Ponto de partida

O papel do cuidado e a carga invisível

A oficina começou pelo que está antes da agenda: o papel do cuidado. O argumento apresentado nas duas edições é que esse papel recai quase inteiramente sobre a mulher, e que a saída individual apenas o transfere — quem trabalha terceiriza o cuidado dos filhos para outra mulher, que terceirizou o cuidado dos seus para uma terceira. A expressão usada foi "cadeia invisível e pesada". Os dados citados como referência foram os do IBGE de 2022 sobre horas dedicadas a tarefas domésticas e de cuidado, com a diferença entre mulheres e homens descrita como gritante.

O episódio contado para ilustrar veio de uma internação familiar: com a mãe hospitalizada, a mulher da família virava turnos no hospital com um filho pequeno em casa, e a oferta de um filho para ficar com a avó esbarrou na regra de que homens não podiam ficar no hospital para cuidar. A leitura oferecida foi a de que a sociedade devolve o encargo do cuidado à mulher mesmo quando há um homem se dispondo a exercê-lo. Houve ressalva explícita de que não se tratava de discurso contra os homens: o próprio arranjo familiar descrito hoje tem um ex-marido que leva ao dentista, ao médico e cuida das coisas de escola.

Sobre a profissão, o dado histórico apresentado foi o de que até 1958 a mulher não podia exercer a corretagem, direito conquistado a partir de 1962 — e, portanto, uma atividade desenhada por e para quem não exerce o papel do cuidado. A rotina descrita como prova disso: atendimento em fim de semana, feriado e reunião às dez da noite, porque o cliente que mora fora só consegue falar fora do horário comercial. Os números de participação por gênero foram atribuídos ao sistema COFECI, e a proporção de mães entre as profissionais veio de uma pesquisa de mercado que a própria fala classificou como não oficial e respondida por ela mesma; o que ficou dito com segurança é que mais da metade das mulheres que atuam no mercado imobiliário são mães. A ressalva feita do palco foi a de que, no congresso, é preciso tomar cuidado com dado sem fonte pública.

O contraponto às frases de motivação fechou o bloco: "não temos, só o relógio tem as mesmas 24 horas". O que muda é o contexto e a carga de cada um dentro do mesmo período. Na mesma linha veio o relato do começo no mercado imobiliário em regime CLT, quando, na primeira semana de trabalho, o pedido de aviso com antecedência — porque havia um filho na escola e uma avó que dependia de horário para dar aula em casa — foi respondido com a menção a rever a contratação. A frase que ficou da própria fala, sobre o que aquele período comunicou: "não pari meu cérebro".

Diagnóstico

A maleta, o mapa da semana e a busca por margem

O objetivo declarado da oficina não foi entregar rotina perfeita, e sim construir clareza para uma rotina possível dentro do contexto real de cada uma. A recusa à fórmula foi literal: um slide preparado pela organização foi pedido de volta para correção porque falava em dar conta de tudo, e a versão corrigida entrou na edição da tarde — ninguém dá conta de tudo, foi a justificativa dita em sala.

O exercício central foi apresentado com uma maleta aberta pelas participantes. Dentro, dois objetos: o dinheirinho de um jogo de tabuleiro imobiliário e um kit de primeiros socorros. O primeiro foi lido como segurança e sustento — e como rede de apoio, porque rede de apoio paga depende de recurso. O segundo, como o cuidado: o kit que prepara para socorrer, mas também o band-aid que cobre uma ferida que não cicatriza quando o problema é de estrutura. A pergunta devolvida à sala foi o que mais cabe nessa maleta e não entra na agenda; na edição da tarde, uma das respostas trazidas pela plateia foi preocupação — o filho adoecido em casa enquanto se está no evento.

A tarefa proposta, com a ressalva dita nas duas edições de que não caberia no tempo da sala, é registrar uma semana inteira num papel: cada atendimento, cada plantão, o cafezinho com o colega, a conversa paralela, a academia, o dia em que o filho ficou doente, a visita que se descobriu fora de perfil. Depois, classificar cada linha em resultado, obrigação, cuidado, pausa e o que está escapando pela mão. O objetivo enunciado não é encontrar culpa — "nasce a mãe, nasce o coque e nasce a culpa" — e sim encontrar margem para transformar. A imagem usada foi a de cavar para ver o tamanho do buraco antes de tentar corrigi-lo.

Da mesma leitura saem as quatro perguntas do slide: o que fica comigo, o que preciso dividir, o que precisa mudar de formato e com quem posso contar. E dois exemplos concretos de aplicação foram contados: a administração de aluguel foi retirada da própria operação e repassada a outra imobiliária no ano em que a carga pessoal aumentou; e, na semana de viagem para o congresso, a escolha deliberada de almoçar fora e simplificar o jantar para liberar tempo. Aceitar ajuda apareceu como a parte mais difícil, pelo hábito de querer dar conta sozinha: o relato foi o de ter precisado de ajuda na preparação desta oficina, tê-la recebido e ter enxergado ali a importância das pessoas em volta.

Produtividade

Plantão, foco e o que gera resultado

A tese profissional da oficina foi enunciada como "presença não é produtividade". O relato de origem: no começo da carreira em corretagem, com um filho em adaptação na escolinha, eram dois dias por semana e três horas de plantão na imobiliária — tempo em que não se olhava para o lado. No mesmo salão, colegas passavam o dia inteiro disponíveis, entre conversa paralela e vídeo, e a corretagem não acontecia. A primeira venda saiu rápido, e a reação descrita foi de desconfiança dos colegas; a resposta dada foi que não havia atalho, havia foco.

A origem daquela primeira venda foi a rede pessoal: contar à equipe de corrida que estava começando na profissão. Daí a regra repetida — "todo mundo tem que saber que você é corretora de imóveis": os pais dos amiguinhos dos filhos, o pessoal da academia, o salão. E, na captação de rua, o método descrito foi o bilhete escrito à mão deixado na caixa de correio; a proprietária que respondeu explicou depois que respondeu justamente por causa do bilhete escrito à mão. A crítica ao discurso de que falta lead veio junto: antes de reclamar do que a imobiliária entrega, mapear o que já está no CRM e gerar lead próprio.

A régua de qualificação apresentada tem três filtros. Na captação, imóvel com documentação vendável e preço correto — foto boa não vende imóvel mal precificado, e imóvel mal precificado ajuda a vender os outros. A ferramenta citada é a matrícula baixada no site dos registradores por pouco mais de R$ 20 antes de investir tempo: um processo de inventário pode levar meses ou anos, e a experiência anterior no jurídico foi trazida como testemunho de vendas perdidas por documentação que dava para antecipar. Na visita, filtrar antes por telefone ou WhatsApp: quem ainda precisa vender um imóvel para comprar outro não é comprador ainda, e pede outro tipo de trabalho. E, no acompanhamento, um semáforo básico de intensidade, porque não dá para atender todos os clientes com a mesma frequência.

O follow-up foi apresentado como o que sustenta a conta no longo prazo: o caso contado nas duas edições é o de um cliente mantido em contato por quatro anos, com a venda adiada por mudança de planos e pela doença de um familiar, até o momento em que a compra aconteceu. O registro é inegociável — "o melhor CRM que tem é o preenchido", e "aquilo que a gente não mede, a gente não vai gerenciar" —, mas a ferramenta é secundária: a corretora experiente da equipe anterior que organiza tudo numa agenda de papel e sabe cada cliente de cor continuou com a agenda, porque não se mexe no que está funcionando. Fecham a lista o relacionamento cultivado depois da chave entregue — água gelada e lanche no atendimento, com a permissão da mãe antes de qualquer doce para a criança, vinho no aniversário de casamento — e a leitura de que parte da remuneração da profissão não é dinheiro.

O erro contado como aprendizado foi de energia mal alocada: um pedido chegado pelo Instagram para comprar dois estúdios em São Paulo, à vista, fez parar todos os atendimentos da própria região e da própria tipologia para correr atrás de um produto e de um mercado que não se dominava; quando o material ficou pronto, a cliente já tinha comprado. A conclusão foi dupla — escolher onde investir energia e, no que não se domina, indicar ou fazer parceria com quem tem a expertise, como no caso de área industrial repassado a um corretor especializado. Na mesma chave entra o posicionamento da equipe: cada corretora mora num condomínio da região e concentra ali os imóveis à venda, o que reduz deslocamento e aumenta a chance de ter a segunda opção na mão quando o cliente aparece.

Números

Renda, metas e o caso de uma estreante

A edição da tarde abriu retomando uma observação feita no congresso do ano anterior: maternidade e carreira não é o tema que atrai por promessa de dinheiro no bolso. Ainda assim, dinheiro entrou na pauta e com posição declarada: "eu não gosto de romantizar". Dinheiro foi apresentado como segurança e como rede de apoio paga — babá, cuidador, espaço de contraturno —, porque nem todo mundo tem avó ou sogra disponível, e porque a rede que existia num momento pode desaparecer. O relato pessoal usado foi o de uma separação ocorrida entre uma edição e outra do congresso: guarda compartilhada semana sim, semana não, duas casas onde havia uma, corte de custos e perda do apoio doméstico que sustentava a rotina.

Sobre as médias da profissão, os números de renda foram levados ao slide com a ressalva de que servem para dar contexto, não para definir teto. O que a fala sustentou nas duas edições é que a faixa que ultrapassa dez mil reais por mês é pequena — e a plateia foi consultada sobre quem faz o mapeamento anual do próprio faturamento, com duas participantes confirmando estar acima dessa faixa. A observação seguinte foi de gestão: já se ouviu de equipe inteira que a meta pessoal era chegar à média, e o incômodo relatado foi com a modéstia do alvo num mercado que permite mais.

O contraponto foi a crítica à meta que não cabe na vida real. A cena descrita é a de convenção com cifrão pendurado no salão e o mantra de dinheiro, meta e venda, enquanto a pessoa adoece por dentro porque aquele modelo de corretor ideal não serve para ela — e o diagnóstico é de que isso é uma das coisas que mais adoecem o mercado, para mães e também para homens. A saída proposta é ambição saudável: querer ganhar, sem que custe mais do que cabe na vida. E reserva financeira tratada como necessidade, não luxo, porque a renda é variável e existem os períodos de queda descritos como inverno.

O caso apresentado para mostrar consistência dentro da vida real é o de uma corretora que veio de fora do mercado, conhecida numa aula de balé, com dois filhos e rotina apertada: primeira venda em cerca de 30 dias e cinco vendas no primeiro ano, num condomínio afastado onde outras imobiliárias não conseguiam vender. A comparação feita foi com equipes anteriores em que corretores levavam nove meses ou um ano para a primeira venda. O acompanhamento descrito é numérico e combinado: mapeamento dos doze meses, meta de renda declarada pela própria corretora e a conta reversa de quantas captações, quantos atendimentos e quanto de venda são necessários para chegar lá — respeitando a rotina que ela tem. A explicação oferecida para o resultado não foi técnica: entende de gente, e a parte técnica está sendo lapidada.

Acordos

Comunicar a necessidade, negociar formato, construir rede

O último bloco tratou a comunicação como ativo profissional, apoiada em dois princípios anunciados na abertura: comunicação não violenta e autorresponsabilidade. A necessidade legítima foi apresentada como algo que não é problema nem falta de compromisso — e comunicá-la, com pedido claro, como o que abre espaço para acordo. O exemplo prático de negociação foi o da reunião engessada de franquia: em vez de faltar ou aceitar em silêncio, propor outro horário ou outro formato. Um deslocamento de horário chegou a ser aceito como sugestão nova por quem organizava a agenda.

A lista de acordos possíveis levantada nas duas edições: participação online em parte dos encontros, plantão remoto num sábado dedicado a reativar clientes, reunião híbrida, pré-atendimento por vídeo antes da visita, colega de apoio de confiança para uma corrida pontual e follow-up feito em bloco de tempo. E o contorno que evita o mal-entendido: "flexibilidade não é ausência de compromisso". A corretora que participava das reuniões online, no relato de gestão, era das que mais produziam e das que mais interagiam — e o mesmo formato acabou servindo a quem tinha outras questões, sem relação com maternidade.

Também foi dito o limite: nem toda necessidade comunicada é legitimada. Quando não é, a proposta foi olhar para o ambiente e avaliar o que ele devolve — a decisão relatada foi a de sair de espaços assim, mantendo relacionamento e parceria, e construir o próprio. É o que a operação apresentada faz hoje: uma imobiliária pequena, formada por mulheres mães, com reuniões frequentes e cobrança de resultado, mas com liberdade para acompanhar filho em atividade de escola e extracurricular.

Sobre rede de apoio, a conclusão foi que ela não cabe em planilha e pode começar por uma conversa com quem entende a mesma realidade — uma gestora que também é mãe, por exemplo. As formas relatadas são pequenas: piquenique na casa de uma das corretoras com as crianças enquanto as outras atendiam, uma colega que cobre o dia em que o filho adoece, uma comunidade de mães e a parceria com colegas da própria imobiliária. E, como referência de acolhimento no ambiente de trabalho, foi citado o próprio congresso, onde em uma edição anterior o filho pequeno foi recebido pela equipe e ganhou um crachá com o nome do personagem preferido — e onde, nesta edição, o urso de pelúcia enviado pelo caçula ganhou o mesmo crachá.

O fechamento foi um plano de sete dias com duas ações: uma para proteger o resultado — cortar o que consome energia sem retorno — e outra para devolver margem à rotina. E a síntese repetida nas duas edições: a rotina não se organiza só com a agenda; organiza-se com contexto, apoio, comunicação, dinheiro, foco e vida real.

O que ficou

Assentado

  • A oficina não ofereceu rotina perfeita nem fórmula: a proposta foi mapear a semana real, classificar cada atividade e procurar margem em vez de culpa.
  • Presença no plantão não equivale a produção — o relato de dois dias por semana e três horas de foco, com venda rápida, foi repetido nas duas edições como prova.
  • Captação e visita qualificadas protegem o tempo de quem tem poucas horas: matrícula analisada antes de captar, cliente filtrado antes da visita e intensidade de atendimento graduada por estágio.
  • Necessidade comunicada com pedido claro abre acordo possível: participação online, plantão remoto, reunião híbrida, pré-atendimento por vídeo, colega de apoio e follow-up em bloco.
  • Dinheiro entrou como segurança e como rede de apoio paga, com ambição que caiba na vida — e reserva financeira tratada como necessidade da renda variável, não como luxo.

Em aberto

  • Os dados vieram de fontes distintas — IBGE de 2022 para as horas de cuidado, sistema COFECI para a participação por gênero e uma pesquisa de mercado, classificada na própria fala como não oficial, para a proporção de mães —, e a sessão pediu cautela com dado sem fonte pública.
  • O exercício central, mapear e classificar uma semana inteira, ficou como tarefa para casa: nas duas edições foi dito que não caberia no tempo da sala.
  • Quando a necessidade é comunicada e não é legitimada, a saída discutida foi olhar para o ambiente de trabalho; ficar, negociar de novo ou sair ficou como decisão de cada participante.
  • Mudanças estruturais na divisão do cuidado foram tratadas como fora do alcance da sala — o recorte proposto foram as mudanças pequenas no próprio entorno e na própria equipe.

Termos citados

Comunicação não violenta (CNV)
Linguagem citada como um dos princípios que a fala traz para o mercado, ao lado da autorresponsabilidade: serve para comunicar necessidade e fazer pedidos claros em vez de calar ou impor.
Anunciada na apresentação inicial das duas edições e retomada no bloco de acordos.
Necessidade legítima
Necessidade que existe na vida real de quem trabalha e não configura problema nem falta de compromisso; comunicá-la é apresentado como pedido, não como pedido de dispensa.
Bloco sobre comunicação e negociação de formato de trabalho.
Flexibilidade
Definida pela negativa na própria fala: não é ausência de compromisso. É mudança de formato — online, remoto, híbrido — mantendo entrega e participação.
Lista de acordos possíveis, nas duas edições.
Inverno
Nome dado aos períodos de queda de produtividade provocados por um impacto pessoal, em que é preciso parar para digerir o que está acontecendo — e para os quais a reserva financeira existe.
Bloco sobre dinheiro e reserva.
Captação qualificada
Captar imóvel com documentação vendável e preço correto, com a matrícula analisada antes, em vez de acumular carteira que não se converte.
Bloco sobre a rotina que gera resultado.
Rede de apoio
O conjunto de quem viabiliza o trabalho — família, apoio pago como babá, cuidador e contraturno, e colegas que se cobrem. Descrita como desigual entre as profissionais e não gratuita.
Retomada em toda a oficina; fechamento do bloco final.

Citados na oficinaIBGE (dados de 2022 sobre tarefas domésticas e de cuidado)·Sistema COFECI·Pesquisa Mulheres do Imobiliário·Casa é Sentimento (imobiliária)·RE/MAX·Lopes·MyBroker·Site dos registradores (consulta de matrícula)·Comunicação Não Violenta·Minha Casa, Minha Vida (programa habitacional)·CIMI360

TemasMaternidade e carreira·Rotina do corretor·Produtividade·Gestão de equipe·Rede de apoio·Comunicação não violenta

Quem falou

A seguir nesta sala

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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