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Sala A3

27/08 · 11h00–12h0060 min de oficinaresumo em 9 min

Jornada do cliente: onde o negócio se perde

A decisão imobiliária se constrói — e se perde — muito antes da assinatura: em microcompromissos, percepção de risco e conexão humana que a esteira do CRM não enxerga.

Michel Costa

O essencial

Contexto

Oficina da sala A3 no dia 27/08, apresentada em duas edições de mesmo conteúdo (11h00 e 15h00), conduzida por Michel Costa, diretor comercial da Ita Corretora, a partir de uma trajetória de 22 anos em negociação comercial por grandes marcas. Formato interativo, com perguntas devolvidas à plateia e uma ação prática — envelope com carta lida em voz alta, experiência sensorial e latas de energético distribuídas — encerrando com o mapa da perda invisível, um compromisso de 24 horas e QR code para grupo de diagnóstico da jornada.

A sessão em detalhe

Tese central

A decisão nasce antes da assinatura

A oficina abriu com a pergunta que deu régua às duas edições: em que momento o cliente de fato decide? A resposta sustentada foi que a maior dicotomia do mercado imobiliário é confundir a assinatura do contrato com o processo de decisão. A assinatura é apenas a concretização de uma compra; a decisão comportamental ocorre muito antes, construída por uma sequência de sinais — e o cliente não vive a operação da imobiliária, vive os sinais que ela produz.

Por isso a esteira que a empresa enxerga (lead, atendimento, visita, proposta, contrato) é diferente da jornada que o cliente vive: a expectativa ao achar o imóvel rolando a tela do celular de madrugada, a dúvida sobre se é o momento de financiar — juros, taxas, condições —, a comparação permanente com concorrentes e o medo. Se o atendimento do dia seguinte vem frio ou fora do prazo combinado, esses microcomportamentos levam o cliente à compra ou ao concorrente.

A compra de imóvel — dos exemplos de algumas centenas de milhares de reais aos que passam de um milhão citados em sala — foi tratada como decisão muito mais emocional que racional: "ele não processa como uma planilha". O caminho comportamental é o mesmo da escolha entre uma V-Power e a gasolina comum ou da compra de uma lata de energético, só que com percepção de risco incomparável. E o CRM, repetiu-se nas duas edições, é consequência das experiências entregues, não a jornada em si: antes de medir venda, conversão e contrato, é preciso estudar a parte comportamental de quem decide — seja em vendas, seja em locação, tratadas como duas casas de uma jornada única.

Comportamento

Confiança cumulativa e aversão à perda

O mercado foi descrito como "100% baseado em confiança e reputação": todos querem a atenção do cliente, poucos se dispõem a conquistar a confiança. E confiança não surge num aperto de mão: é cumulativa, feita de pequenos comportamentos que o cliente vai pontuando como marcadores somáticos — não atendeu, um ponto a menos; atendeu e respondeu, dois a mais; atendimento presencial, três.

A régua emocional é a aversão à perda, tema de estudos citados nas duas edições: pesa mais a dor de perder do que o ganho. No setor, cada perfil tem um medo próprio — o proprietário teme perder o patrimônio; o inquilino, fazer uma escolha ruim; o comprador, se arrepender depois. Quanto maior a percepção de risco, maior a necessidade de confiança; a pergunta devolvida à sala foi o que cada operação faz hoje para mensurar e mitigar o risco de quem está do outro lado.

Microcompromissos decidem esse jogo: prometer contato às 15h02 e chamar às 15h12 já quebra o elo; cumprir o horário prometido importa mais do que investir em tráfego pago. A sequência da perda foi desenhada igual nas duas edições: uma pequena fricção vira perda de confiança, que vira menor engajamento, que vira distanciamento — o cliente que simplesmente para de responder — até a desistência, que só chega por último. Daí a tese-síntese: não existe perda por preço; toda perda comercial é perda de confiança e de entrega de valor.

O cliente de hoje não reclama mais — nem no Reclame AQUI, cuja referência foi descrita em queda: ele só vai embora, porque tem muita opção. Uma venda bem-feita gera um cliente; uma venda malfeita gera 10 detratores. Entre os sinais invisíveis mapeados pela pesquisa da oficina: falta de clareza e de empatia — os maiores pontos de impacto entre os entrevistados —, promessa não cumprida, transferência excessiva (documentação jogada no colo de quem não está preparado) e ausência de acompanhamento.

O dado da oficina

A pesquisa: o próximo passo não fecha pelo WhatsApp

A tese ganhou lastro numa pesquisa recente apresentada nas duas edições, feita com 230 imobiliárias e um grupo de mais de duas mil pessoas. O achado-manchete: 36% das pessoas disseram que em hipótese alguma tomariam a decisão de dar o próximo passo se a interação fosse pelo WhatsApp. Quem recebeu abordagem fria pelo aplicativo relatou falta de confiança e de conexão da parte de quem abordava — e preferência por escutar a voz de quem está do outro lado.

A leitura oferecida: quem quer falar só por WhatsApp somos nós, não o cliente. Uma decisão descrita como a mais importante da vida de uma pessoa precisa ser tomada olhando nos olhos; quando não dá para olhar no olho, tem que ter voz. Mensagem rápida comendo ponto e vírgula perde o essencial — "o ponto e vírgula é o contexto de uma decisão".

Acompanhamento de verdade, definiu-se, não é follow-up para saber se o cliente vai comprar: é ligar e perguntar se ele está seguro da decisão e o que pode ser esclarecido. Ninguém compra de uma IA — as pessoas querem comprar de pessoas que geram confiança. A prescrição repetida: pegar o telefone, conectar-se de forma genuína e ser muito mais interessante do que interesseiro no primeiro contato, coletando informação antes de vender.

Um relato de compra própria reforçou o ponto: de mais de uma dezena de corretores procurados, um único gerou confiança — ofereceu buscar o comprador, perguntou o nome da filha e apresentou uma pré-maquete do quarto feita com IA, falando de benefício e de sonho em vez de características.

Neurociência aplicada

Muda-se o estímulo, não o comportamento

Segundo a neurociência citada em sala, o comportamento não muda — o que muda é o estímulo. O exemplo doméstico: dizer duas mil vezes à filha de cinco anos para descer do sofá não funciona; trocar o estímulo — sem sorvete no fim de semana — resolve "como um passe de mágica". Transposto ao setor: o cliente some do WhatsApp e a locação ou a venda se perde porque os estímulos oferecidos são sempre os mesmos; sem mudança de comportamento não existe próximo passo, e sem próximo passo não se fecha negócio.

A base do processo de decisão foi apresentada como um "fractal": significado (o que a aquisição representa para aquela pessoa), contexto (onde e como a conversa acontece) e motivação (o estímulo que se gera). O exemplo do quadro avaliado em 93 milhões de dólares: posto na porta da Galeria Pagé, talvez ninguém saiba o preço; num local com significado, contexto e motivação, os negócios acontecem. Sem criar os três, "você vai ser mais um imobiliário".

As marcas serviram de espelho. A Red Bull, apontada como a única grande marca monoproduto cujo Instagram não comunica o produto — fala de esporte e de Fórmula 1 —, gera reputação, conexão e confiança. A Apple, estudada de perto pelo trabalho de fidelização, desenha a jornada para dois desfechos: comprar ou sair fidelizado, sem um terceiro. E veio o alerta de que confiança também se perde: pessoas confiando menos na Red Bull enquanto a Monster se aproxima do cliente no checkout, na gôndola e no PDV — como já teria acontecido com marcas da Ambev e equipamentos da Samsung — foi apresentado como paralelo exato do que acontece agora no mercado imobiliário.

Prática e encerramento

Envelope, ecossistema e o mapa da perda invisível

A oficina praticou o que pregou: cada participante recebeu um envelope com uma carta, lida em voz alta na sala, sobre as maiores perdas da jornada nascerem na pergunta que não foi feita e no cuidado que deixou de existir — quando alguém se sente visto, ouvido e valorizado, a interação vira confiança, e confiança vira escolha, permanência e recomendação; as pessoas esquecem o que você diz, mas não esquecem como você as fez sentir. A ação seguiu com uma experiência sensorial e latas de Red Bull distribuídas ao final, para "eternizar na lata" uma nova experiência a levar para a jornada do próprio cliente — encenando também a antecipação (experimentar uma decisão antes de entendê-la racionalmente) e a reciprocidade que uma ação assim desperta.

O bastidor virou aula: na véspera, o fornecedor não entregou as latas no Rio de Janeiro; a solução relatada foi sair às dez da noite, comprar, levar de Uber e subir sem carrinho de hotel — porque a experiência do cliente começa numa atitude comportamental de quem atende, não na terceirização do problema: "se não dá pra ligar, vai até ele; dá um jeito de falar com ele".

Imobiliária é ecossistema: o estacionamento tem que atender bem, a recepção tem que atender bem — o manobrista, a "tia do café" —, e a jornada não pode depender só do corretor nem do dono; o jogo se perde no café e no estacionamento sem que a operação enxergue. Grandes empresas, resumiu-se, não são reconhecidas pelo resultado: o que precede o resultado é cultura, e o que precede a cultura é comportamento — sem mudar o estímulo dos times, o jogo continua o mesmo. Melhorar essa jornada única em 1, 2, 3, 4% já deixa a operação "muito à frente da concorrência".

O encerramento entregou o mapa da perda invisível, igual nas duas edições: confrontar, etapa a etapa, o que o cliente espera com o que se entrega — agilidade no atendimento, segurança na visita, clareza na proposta (ele não entende de cláusulas; quer olhar no olho), tranquilidade no contrato e cuidado no pós-venda, onde mora o maior ativo do negócio: a indicação. O dever de casa: nas próximas 24 horas, encontrar uma perda invisível ou mudar um comportamento e observar o resultado — em vez de refazer a jornada inteira, mudar um ponto de contato de cada vez —, com QR code levando a um grupo de WhatsApp com diagnóstico da jornada, material e pesquisas. O fecho: a IA é caminho e etapa, não destino; o destino é entender o comportamento de quem compra, com o framework expectativa, experiência e confiança — "vocês são insubstituíveis".

O que ficou

Assentado

  • A decisão imobiliária se constrói muito antes da assinatura; o contrato é a concretização, não o momento da escolha.
  • Perda comercial não se explica por preço: é perda de confiança e de entrega de valor, num mercado 100% baseado em confiança e reputação.
  • Confiança é cumulativa e feita de microcompromissos: cumprir o horário prometido de uma ligação pesa mais que investimento em tráfego pago.
  • Comportamento não muda; muda-se o estímulo — e é o estímulo novo que destrava o próximo passo da jornada.
  • IA entra como inteligência aumentada, para processos e escala; a conexão que fecha negócio é humana — ninguém compra de uma IA.
  • A experiência é um ecossistema (recepção, estacionamento, café) e não pode depender só do corretor ou do dono.

Em aberto

  • As perguntas devolvidas à plateia como exercício: quais perdas invisíveis a operação consegue enxergar hoje e qual o menor comportamento a mudar para produzir maior percepção de valor.
  • O gap entre o que o cliente espera e o que se entrega em cada etapa do mapa — cada operação saiu com o dever de localizá-lo nas próximas 24 horas e observar o resultado, com continuidade prometida no grupo de WhatsApp do QR code.

Termos citados

Mapa da perda invisível
Exercício de fechamento: confrontar, em cada etapa da jornada, o que o cliente espera com o que se entrega — agilidade no atendimento, segurança na visita, clareza na proposta, tranquilidade no contrato e cuidado no pós-venda — para localizar onde o negócio se perde.
Apresentado como encerramento nas duas edições, junto do compromisso de 24 horas.
Aversão à perda
Princípio de comportamento em que a dor da perda pesa mais que o ganho: no setor, o proprietário teme perder o patrimônio, o inquilino teme a escolha ruim e o comprador teme o arrependimento.
Sustentado por estudos citados em sala e aplicado à comunicação com cada perfil de cliente.
Microcompromisso
Pequeno acordo dentro da jornada — como o horário prometido de uma ligação — cujo cumprimento constrói confiança e cuja quebra rompe o elo com o cliente.
Exemplificado do palco com a promessa de contato às 15h02 cumprida só às 15h12: a quebra de elo.
Inteligência aumentada
O modo defendido de usar a IA: alavancar processos e liberar tempo para conexão humana, com senso crítico — nunca como "senso decisório para tudo".
Contraponto ao dado de que 90% do mercado usa IA e 20% a usa da forma correta.
Marcadores somáticos
A pontuação que o cliente acumula a cada interação, "como um jogo de matemática": não atendeu, um ponto a menos; atendeu e respondeu, dois a mais; atendimento presencial, três pontos.
Usado para explicar por que a confiança é cumulativa e feita de pequenos comportamentos.
Significado, contexto e motivação
O "fractal" na base do processo de decisão: o que a aquisição significa para a pessoa, o contexto em que a conversa acontece e o estímulo que se gera para o próximo passo.
Do exemplo do quadro de 93 milhões de dólares ao atendimento por mensagem que come o ponto e vírgula.

Citados na oficinaIta Corretora·Red Bull·Monster·Ambev·Samsung·Apple·Ipiranga·Petrobras·Reclame AQUI·Google·Galeria Pagé·Uber·V-Power·Fórmula 1·Pesquisa com 230 imobiliárias e mais de 2 mil pessoas apresentada na oficina

TemasJornada do cliente·Comportamento do consumidor·Confiança·Experiência do cliente·Vendas e locação

Quem falou

A seguir nesta sala

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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